segunda-feira, 18 de março de 2013


por Manuca Almeida

O cinema entrou na minha vida nas tardes de domingo no Cine Teatro São Francisco; a gente esperava  a semana toda pra poder assistir a matinê, dinheiro no bolso, pipoca, bombom e pirulito zorro. Era o tempo da pastilha garoto e ainda não existia o bombom chiclete e a pipoca industrializada – era feita na hora, o amendoim tinha uma cobertura de açúcar e era corante, algodão doce de todas as cores e o sorvete de seu sorvetão tão sujo e delicioso, único e pioneiro na cidade.  Django na tela, Zé Trindade, Oscarito, Grande Otelo e as notícias semanais do campeonato brasileiro faziam as preliminares. Foi ai que conheci as gostosas de Hollywood e o cinema nacional com uma força comercial tão grande quanto os clássicos consagrados. Era tão real que eu pensava que o cinema nacional era tão forte quanto os filmes estrangeiros. A invasão foi tão grande que o comportamento, os costumes, a música passaram a influenciar as nossas vidas, roupas e principalmente na cultura de um modo tão direto que serviram de exemplo pra algumas gerações que sucederam a ditadura. Eu recebi assim o cinema e falo assim por que é bem claro, pra quem nasceu e cresceu no interior, o quanto o cinema é importante nos levando direto pro pensamento, assim como a musica equilibra a imagem desenhada pelo pensamento cênico.
Um dia Paulo Bety me disse que a gente fazia as melhores fitas, que a gente é capaz de criar, fazendo das nossas dores, medos e verdades, elementos ou matérias pro nosso trabalho e quase sempre sem nada, ou com menos do que precisamos para criar.  A nossa alma respira com a cena e acena pedindo outro plano.
No dia que levei pra Raul o que ele pediu, escutei dele que a vida dele era cinema e que ele não era o rei do rock nacional, ele era um ator e me dirigiu a noite inteira me fazendo recitar o mesmo poema. Morreu antes de fazer seu longa (quem ficou com o roteiro? ) e é por isso que eu achei que era mesmo ator. Foi ele quem me disse;  você é um puta ator poeta, você é muito louco, quero você no meu filme!”.  E não deu tempo lançar…Ele me filmou eu sei que tá com ele (Noutras). Agora espero Galvão me chamar  mas tá demorando.
…Aqui no norte da Bahia a caatinga é poesia pro cinema nacional e foi aqui que eu voltei a respirar cinema. Nos anos 90 uma sequencia de produções e produtoras nacionais vieram pra nossa região, a caatinga, a cidade, os artistas tiveram  o que aprender. A 7ª arte na Terra de João Gilberto falando de seca, de bode também, seu povo, seus mitos e o sol comendo no centro do juízo da cabeça deles. Aqui, a vegetação interage com a imagem falando diretamente com suas formas e com a cor bem peculiar da região.
Foram mais de 50 comercias nacionais, 9 longas e alguns curtas pra eu perceber que a minha vida já tinha se transformado e o cinema era o responsável direto por esse feito. ESPERANDO NA JANELA  abriu as portas do mundo pra minha musica e o cinema fez a musica explodir e a musica fez o filme mais popular, disse pra mim seu Pedro Morador do Junco no vale do salitre (Figurante ) em alguns trabalhos por aqui realizado. Hoje a cidade tem profissionais preparados pra qualquer tipo de produção com experiência inclusive em outras cidades e estados, mão de obra mais barata pra produtoras que vem do sul, é claro… E mesmo assim, aqui, na nossa cidade, o cinema foi vendido pra um empresário que comercializa produtos importados e baratos tipo xiguilingue, o mesmo cine teatro que se apresentaram artistas como Raul Seixas, Altemar Dutra, Waldick Soriano, entre outros. Hoje alguém vende cadeado ou copo de segunda, aonde, um dia, assisti  Em Ritmo  de Aventura. Aqui, Ivete Sangalo assistiu Sissi.

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